3 coisas que aprendi vivendo na Holanda

Esse vai ser o primeiro post não-receita aqui do blog, mas também vou falar de comida. :) “3 coisas que aprendi vivendo na Holanda” foi o tema proposto num grupo de que participo – o Blogueiras Brasileiras na Holanda – para uma postagem coletiva no dia de hoje. Somos 11 brasileiras falando ou escrevendo sobre este mesmo tema, cada uma em seu respectivo blog ou canal, para os quais vou deixar os links lá no final do texto. Gostei muito da ideia de diversificar um pouquinho o tipo de post por aqui e espero que vocês também gostem, mas vou responder mantendo a temática do Diário de Prato: comida. O que eu aprendi de diferente, com relação a alimentação, nesses 3 anos e meio morando aqui na Holanda?

1 – Existe vida sem almoço

Esta foi a primeira coisa a que precisei – na verdade eu quis – me habituar, assim que me mudei para cá. Os holandeses não costumam almoçar como nós, brasileiros. O que aqui eles chamam de almoço, para a gente não passa de um lanchinho. Eles comem na hora do almoço basicamente as mesmas coisas que comeram no café da manhã. A gente brinca aqui que a diferença entre o café da manhã e o almoço holandês é somente a hora. Pão de manhã e pão de tarde, seja em casa ou no trabalho. Pode ser só um sanduichinho simples de pão de forma com manteiga e presunto – o famoso boterham, ou outras opções, como pão com pasta de amendoim – pindakaas, ou até pão com manteiga e chocolate granulado. Sim, eles adoram. Mas “refeições quentes” na hora do almoço, quase ninguém come. Aqui só se cozinha uma vez por dia e é na hora da janta. Aí sim eles comem pratos quentes como nós no Brasil. Poderíamos pensar que tais lanchinhos não sustentam direito a pessoa até a hora do jantar, mas a diferença é que aqui se janta muito mais cedo. Por volta das 18h, no máximo, a comida normalmente já está na mesa holandesa. Eu me acostumei bem rápido a essa nova rotina, pois acho muito mais prático só cozinhar (e lavar louça!) uma vez ao dia. O tempo assim rende muito mais. A única coisa de que eu não gostava muito, no início, era de comer pão duas vezes ao dia, mas agora já encontrei uma solução para isso: como frutas no café da manhã e deixo o pãozinho só para o almoço.

2 – Só dois pratos tá bom

Eu vim para cá acostumada a mesa farta – feijão, arroz, salada, farofa, frango, carne ou peixe, legumes refogados, purê de batata e às vezes até tudo isso junto num mesmo almoço, por exemplo. No Brasil, costumamos ter o feijão com arroz como base, quase todos os dias, e preparamos mais uns dois ou três acompanhamentos a cada refeição. No total são umas cinco opções de comida que cozinhamos por vez. Bastante coisa e bastante trabalho também. Mas deixemos bem claro aqui que não estou reclamando desta fartura, não. Muito pelo contrário. Eu aproveito essa variedade para me esbaldar com a comidinha maravilhosa da mamãe toda vez que vou ao Brasil. Adoro! Mas aqui na Holanda o lema é praticidade e rapidez. Na maioria das vezes – e das casas, incluindo a minha – os jantares consistem em uma “proteína” (frango, porco, peixe ou carne, nessa ordem) e no máximo um ou dois acompanhamentos, que podem ser legumes cozidos, salada, uma massa, purê de batatas, batata, batata, batata etc. E a isso eu também me adaptei. Bem, na verdade eu me adaptei à quantidade (só fazer um ou dois acompanhamentos por refeição), mas não à qualidade. E com “qualidade” eu quero dizer sabor e tempero, pois nessa busca constante por rapidez e praticidade, eles muitas vezes acabam ficando de lado nas comidas holandesas do dia-a-dia, ou então se apela para os temperos e molhos prontos de pacotinhos. Mas a isso eu não me adaptei e nem quero me adaptar. Posso não ser tão rápida quanto eles para preparar um jantar, mas não abro mão da “comida de verdade”, sem aditivos químicos, conservantes, corantes e todos esses ingredientes estranhos que estão nos “preparos prontos”, que lotam as prateleiras dos supermercados e as despensas dos holandeses.

3 – Aqui pode dizer não

Há algumas semanas, houve no Brasil uma grande polêmica, só porque a Taís Araújo se recusou a comer um nhoque de abóbora que a Ana Maria Braga fez no programa dela. Por quê? Porque ela não gosta de abóbora, uai! E por que a polêmica? Não sei. Hahaha. Brincadeira. É que, no Brasil, normalmente se considera “falta de educação” recusar alguma comida que te ofereçam. Você se sente desconfortável em dizer não, fica com medo de magoar a pessoa, e muitas vezes acaba aceitando coisas sem gostar ou simplesmente sem estar com vontade, só “por educação”. Isso acontece também, porque oferecer comida é um jeito que nós brasileiros temos de demonstrar carinho, demonstrar que nos importamos com aquela pessoa e que queremos agradá-la. E tome comida! “Prova isso! Prova aquilo! Eu fiz pra você!” Enfim, eu adoro esse nosso jeitinho… Mas “os gringo pira”!!!!!! Hahaha. Muitas vezes no Brasil eu vi o Jan em situações desse tipo, sem saber como lidar. Ou melhor, no começo ele até sabia como lidar: dizia não e pronto, no seu mais puro estilo holandês sincero. Mas depois eu tentei “educá-lo” e ensinei que “é feio” recusar comida que te oferecem no Brasil. Só não pode aceitar doces de estranhos. ;) Depois dessa aula de boas maneiras, o bichinho passou a tentar aceitar tudo, mas eu vejo que tem hora que ele não quer mesmo (não está acostumado com nossa fartura, como já contei lá em cima) e fica todo sem graça sem saber como agir. Tenta aplicar todo o seu limitado português e diz bonitinho “não, obrigado”, mas isso não é suficiente. Uma vez ele repetiu essa frase umas três vezes e a pessoa continuou insistindo. Aí ele me perguntou baixinho em holandês, desesperado, como dizer que não quer MESMO, sem ser mal educado, já que o “não obrigado” parecia não estar surtindo efeito naquela situação. Mais uma vez, não estou criticando ou achando ruim, pois sei que esse é o nosso jeito de demonstrar carinho. Mas pessoas de fora, pelo menos os holandeses, podem estranhar, porque aqui na cultura deles “não” é “não” e só se oferece comida uma vez. E ninguém aqui fica ofendido ou chateado se você não quiser comer alguma coisa. Pode até falar que não gosta, não tem problema. Eles estão acostumados com respostas diretas. E essa sinceridade deles (às vezes até exagerada) se estende a todas as outras áreas da vida. Holandês não tem meias palavras. Às vezes eu sinto que isso beira a falta de educação por aqui, em algumas situações, mas o que eu aprendi com eles foi que nem sempre temos que aceitar o que não gostamos só para agradar alguém.

Links para os outros blogs

Nesses outros links, poderemos ver o que outras brasileiras que moram na Holanda aprenderam por aqui, não só quanto a alimentação. Estou curiosa e também vou lá correndo para ver.

Beijos e espero que tenham gostado do meu post não-receita. :) Também adoraria saber o que vocês acham desses costumes holandeses e se conseguiriam (ou já conseguem) se adaptar a eles também. Deixa um comentário aqui pra mim! ;)

 

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9 comentários sobre “3 coisas que aprendi vivendo na Holanda

  1. jezielmedeirosJeziel disse:

    Nosso costume de ficar magoado com um “não” as vezes é muito desagradável também, pois ninguém é obrigado a comer o que não gosta ou não quer. Se empanturrar só para agradar ficou no passado, comer demais ficou no passado, comer bem e “comida de verdade” tem que comandar nossa vida no dia a dia. Esquece aquela coisa de um lanchinho a cada 3 horas, temos que nos preocupar sim em estar bem, e comer quando tem vontade. Excelente publicação Beatriz, em minhas andanças por este mundão também já passei por situações semelhantes a que você passou.

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    • diariodeprato disse:

      Obrigada, dindo! Que bom que você gostou! :) Adorei seu comentário!! É isso mesmo. Meu lema também é esse: comida de verdade e comer quanto sentir fome, sem essas regras chatas de 3 em 3 horas. Só que quando vou ao Brasil bem que eu gosto de me empanturrar e comer tudo que tem direito! hahaha! Adoro comer todas as delícias que passo o ano inteiro com vontade e não como, só com água na boca vendo as fotos dos quitutes que vocês fazem… rsrs.

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  2. Nadia Brasil disse:

    Minha mãe é a típica brasileira que faz a proteína, as vezes duas, é uns 5 ou 6 acompanhamentos. Ela passou 3 meses na Europa e diz que a princípio ficou meio chocada por não se comer a mistura (arroz e feijão) rs, mas com o passar dos dias adorou a ideia de se cozinhar uma vez ao dia com poucas guarnições, mas ao voltar para o Brasil não adiantou (rsrs…), agora ela faz mais acompanhamentos ainda que aprendeu por aí…

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    • diariodeprato disse:

      Adorei essa história da sua mãe, Nadia!!! Hahaha! Em que país ela ficou? Ou visitou vários? Meus hóspedes brasileiros não costumam aceitar muito bem essa ideia de pão no almoço não… rsrsrs. Que bom que depois a sua mãe acabou se adaptando! Mesmo “voltando ao normal” depois. rsrs. Beijinhos, Nádia!!! Obrigada por comentar! Adorei!

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